segunda-feira, junho 13, 2016

Ciao!!!


Se você nunca veio antes ao Literatura de Mulherzinha, vou te situar sobre o óbvio. Eu amo o que a Marina Carvalho escreve. Adorei Simplesmente Ana, De Repente, Ana; Azul da Cor do Mar; Elena, a filha da princesa. E estava brincando de pique-pega com “O amor nos tempos do ouro” desde que ele foi lançado. Até que finalmente o consegui!

O amor nos tempos do ouro – Marina Carvalho – Globo Alt
(2016)
Personagens: Cécile Queiroz Lavigne e Fernão Lopes da Costa

A vida de Cécile mudou draticamente após a perda da família. Aos cuidados do tio, a jovem franco-portuguesa foi vendida em casamento pelo tio ganancioso para o mais importante dono de terras nas Minas Gerais, no Brasil. Na etapa final da viagem, foi escoltada pelo explorador e aventureiro Fernão, a quem recorreu para que a libertasse do terrível destino, mas ele recusou. Ela seria o último trabalho dele, que queria logo abandonar esta vida de “faz-tudo” e cuidar das próprias terras. Só que ao perceber as consquencias da sua decisão, Fernão percebeu que não poderia ficar omisso.

Comentários:

- Este livro é perfeito. Impecável. Não tem exageros nem omissões. Você sente a profundidade da pesquisa, o cuidado necessário em diferentes áreas para que tudo funcionasse. E deu certo. Deu muito certo. Rendeu uma história de amor e, além dela, um retrato possível do que ocorria na época.

- Cécile não tinha poder. Mesmo sendo herdeira da fortuna da família, não tinha acesso ao dinheiro nem independência por ser mulher. Por isso, o tio por parte de mãe, Euzébio, logo a “negociou” em casamento para Euclides de Andrade, um homem sobre o qual não se podia dizer um comentário positivo. Cécile, criada com enorme afeto e de uma forma diferente pelos pais, não conseguiria aceitar resignada este destino, mas a princípio não conseguiria mudar nada sozinha. Ao longo da jornada, Céci vai encontrando a própria força, se tornando uma das forças femininas do livro.

- Ela encontrará um aliado em Fernão. Mas não a princípio, porque quando eles se encontram, ela era o último trabalho dele, a noiva comprada a ser entregue na casa do homem mais rico das Minas Gerais. No entanto, ela não era o que ele imaginava que fosse e se tornou alguém com quem ele passou a se importar. Depois de uma vida inteira fazendo coisas às vezes desprezíveis, o explorador poderia ter encontrado o caminho para a redenção.

- Claro que não será fácil. Temos poder, intriga, sofrimento, violência. Seres humanos se julgando superiores a outros porque tinham dinheiro, influência, pela cor da pele ou pelo sexo. Mulheres tratadas como objetos sem direito a sentimentos ou iniciativas próprias. Escravos tratados e conduzidos como animais. Falsos moralistas se passando por bastiões sociais. Homens se regozijando em ferir outros apenas para manter um status quo pelo chicote.

- A autora nos conduz pelo Caminho Novo, pelo esplendor de Vila Rica ou das fazendas gigantes de cana de açúcar, pelos sons da senzala, pela rotina do quilombo, pelas jornadas estradas rumo ao interior do Brasil, pelas belezas naturais, pelo temor de encontrar os temíveis e violentos índios. Aquela professora de Letras que existiu em mim lia o livro e pensava em todas as formas de trabalhá-lo em sala de aula. A garota que adorava História ficou pasma com as referências que puxavam lembranças de sala de aula. Só pensava em quantos trabalhos interdisciplinares – incluindo Literatura e Geografia – se tornam possíveis a partir da leitura deste livro.

- Outro ponto que também pode render excelentes debates em sala de aula: a abordagem à cultura africana e/ou afro-brasileira que consta no livro. O olhar sobre a escravidão – seria impossível contar a história deste livro ignorando esta triste realidade da história brasileira – está motivado por uma riqueza de detalhes envolvendo a vida a que foram condenados homens e mulheres arrancados de suas tribos na África para serem vendidos e maltratados nas colônias americanas. Se você for estudante ou professora/professor, o que está esperando para levar isso para a sua sala de aula?

- E pessoal, temos um vilão daqueles detestáveis. Usando a televisão como referência (aliás, O Amor nos Tempos do Ouro me remeteu à nata das novelas de época que servem como referência até hoje no imaginário nacional), Euclides de Andrade é o mal encarnado sem redenção, um misto do temível Senhor de Montserrat (eu era criança quando Direito de Amar foi exibida e detestava ele), com o falso moralismo do Dom Jerônimo (um demônio disfarçado de cristão piedoso em A Muralha) e de tudo de ruim que a gente pensa quando alguém cita o Leôncio, de Escrava Isaura (sei que muitos viram a versão mais recente, mas vi as reprises da versão com a Lucélia Santos) ou o Barão de Araruna de Sinhá Moça (escolha a versão que preferir)

- Marina Carvalho nos entrega uma história no mesmo patamar de tramas que li na saudosa parceria
Nova Cultural-Harlequin. Se você acompanha o Literatura de Mulherzinha, sabe que muitos dos romances publicados em banca nesta época tinham além da jornada de amor dos protagonistas, um conteúdo histórico que refletia pesquisa, valorizava o produto e ainda nos ensinava muito. Com o diferencial de que não está falando de algo que ocorreu nos Estados Unidos ou em algum país europeu. Está falando da gente. Da nossa terra. Das origens banhadas em sangue, suor e emoldurada nos metais extraídos das Minas Gerais que enriqueceram poucos mundo afora.

- Todo este cuidado, este respeito, este desvelo quase artesanal nos mínimos detalhes é o que faz amor de Céci e Fernão ser o ouro que enriquece quem lê e que não vou hesitar em recomendar a todo mundo. Marina Carvalho nos entregou uma pérola que estará, com certeza, de volta na lista de melhores do ano do Literatura de Mulherzinha.

Bacci!!!

Beta
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