sexta-feira, abril 16, 2010

16 de abril de 2005, sábado.

Era noite. A luz da lua entrou pela janela e trouxe uma mensagem.
Faças um bem ao mundo. Crie um blog sobre livros de banca e serás feliz.
A garota nem hesitou ao ouvir o chamado: obedeceu à ordem e assim surgiu o Literatura de Mulherzinha.

16 de abril de 2005, sábado.

O convite era irrecusável. Quando Cash Grier encarava alguém daquele jeito, ele conseguia qualquer coisa de uma garota... De declaração de amor a comportamentos esdrúxulos e impossíveis de serem confessados publicamente. E se ele pedia para criar um blog sobre literatura de mulherzinha, por que não?
Ela só teve a audácia de fazer um pedido: não vire protagonista, porque coisas estranhas acontecem com os mocinhos em Jacobsville e ela não gostaria de ver isso acontecer. De novo com outro daqueles olhares que derretiam pedra, ele prometeu que não. Mas ela sabia: não poderia confiar em palavra de mercenário ou teria o coração partido...

16 de abril de 2005, sábado.

O herói machista corria como um desesperado. A casa parecia um labirinto, mas não era possível que ele, um todo poderoso, onipresente e que-sabia-tudo-sem-precisar-de-segunda-opinião não conseguiria escapar de uma mulherzinha... Até sentir o primeiro golpe nas costas e a parte quebrada da vassoura cair ao seu lado. Levantou-se rapidamente e desviou, apesar da dor, de algum objeto pesado que passou zunindo pelo seu ouvido. A porta! Ele sabia que conseguiria... E ao correr para a liberdade (e para o hospital mais próximo) ainda era assombrado pelo juramento enfurecido que escutou:
- Não vou deixar ninguém esquecer! Você nunca terá paz! Todos saberão quem você é!
E assim surgiu o Literatura de Mulherzinha...

16 de abril de 2005, sábado.
Geoffrey, o mais inteligente e amável dos irmãos de Burgh (mas não o subestime, ele também era forte e valente se necessário) apareceu com uma proposta irresistível.
- Crie o blog e será recompensada, milady.
As promessas daquele banho especial apagaram da mente qualquer tipo de argumentação veemente...
Para que lutar se era melhor se render?

16 de abril de 2005, sábado.

Tédio. Tédio total e absoluto. Como que as pessoas conseguiam ter – e manter - blogs na internet? Ela entendia ter um “querido diário” (e a prova era a caixa cheia de cadernos repletos de sonhos, comentários, absurdos, momentos de alegria, solidão, tristeza, delírios e as maluquices típicas da época em que dormiam na gaveta onde ninguém podia mexer sob pena de retaliação imediata e implacável), mas não entendia abrir a alma para uma platéia. Sim, nunca seria atriz – não conseguia expor a alma à apreciação de outro ser humano que não fosse ela própria (como previsível era a juíza mais implacável de si mesmo). Sim, gostava de ficar escondida, de observar a ser observada. E era um exercício e tanto controlar o temperamento difícil – o vôlei já era parte do passado que, às vezes, em dias mais frios, era lembrado pelos joelhos chiantes. Isso é que dava ter tempo de sobra... Devia arrumar um hobby. Algo legal. Algo que ela soubesse que não se incomodaria de fazer. Que seria relaxante e divertido e nunca se tornaria uma obrigação – como diz na música da Legião Tente me obrigar a fazer o que não quero e ‘cê vai logo ver o que acontece...
Aí bateu a dúvida: sobre o que seria capaz de escrever que fosse diverti-la e não chateasse quem se arriscasse a ler? Sobre futebol. Ah, mas havia tantos... Foi aí que a pilha ao lado do computador deixou de ser um bando de livros um sobre o outro e se tornou uma idéia... Ora, por que não? Tinha cansado de penar em Inglês e Espanhol (que não entendia) e em Italiano (que, à epoca, queria tanto entender) atrás das sequencias que as editoras lançavam ao Deus-dará e parecia ter dedinho-mágico para achar, ou das séries incompletas que ela tanto queria saber o que acontecia... Quem sabe se não começasse a contar o que havia encontrado nas prateleiras dos sebos da vida, não esbarraria em outras pessoas com os mesmos proble-mas e poderiam trocar informações?
E foi assim, no dia de São Bento, em meio ao tédio de um sábado à noite, que surgiu o Literatura de Mu-lherzinha.

***

Cinco anos. Trezentas resenhas e mais de cem outros posts entre “editoriais” irados, pedidos de ajuda, matérias de jornal e sites espalhadas por aí, eis que eu ainda estou aqui e que, apesar de tempos difíceis e trovoadas, o Literatura de Mulherzinha ainda existe. Ele sobreviveu aos bons e maus humores, às novelas sem fim envolvendo a pós-graduação que parece estar sempre dois passos distantes de mim...

Cinco anos, uma eternidade. Tempo suficiente para conhecer histórias, acompanhar partes de vidas, encontrar e desencontrar pessoas, pesquisar, ficar curiosa, trocar idéias, rir, reclamar, quebrar a cara, juntar os caquinhos e começar de novo, aprender línguas, trocar de emprego, ver gente casar, cismar, mudar de idéia sobre a cisma, perder a conta das mudanças no cabelo, estar de aparelho, tirar o aparelho, virar vítima do efeito sanfona, ir do céus ao infernos e voltar aos céus com o futebol, aumentar a lista de “xodós”, editar a lista de “xodós”, acrescentar novos “xodós”, caçar o livro imperdível, decepcionar com algumas histórias, prometer fazer uma seleção no armário superlotado, finalmente levar os livros para o sebo, ver que o armário continua sem espaço e perceber que tem que fazer outro “momento faxina” urgente, ler, ler, ler, ler, ler e fazer amigos nessa rotina de compartilhar o que achou daqueles livros que muitos olham torto e que a gente aprendeu a assumir que lê sim e o problema é dos outros... (Só é problema meu quando invisto meu dinheiro em uma história que dói de tão ruim... Nada que uma visita ao sebo não corrija).

E para quem começou por um convite/chamado/motivo para ocupar o tempo, até que estou durando muito. Um tanto de perseverança e altas doses de teimosia (que podem ser a mesma coisa dependendo do ângulo que você olha). Talvez por ter encontrado quem lesse, comentasse de volta, incentivasse. Ter encontrado Anjos da Guarda, conselheiros, confidentes, pitaqueiros, um ou outro mal humorado (*sim, existem pessoas piores que eu diante de histórias ruins*). Permitam-me não citar nomes, porque vou cometer a injustiça de esquecer alguém – o que não seria justo. Todas as pessoas especiais, próximas de local ou virtual ou distantes momentaneamente sabem quem são e sintam-se lembradas, homenageadas e igualmente abraçadas nesta festa...

E em um blog onde apenas os comentários de baixo nível são censurados, ninguém pode reclamar de ditadura por aqui. Liberdade de expressão. Tietagem explícita. Livro de banca, de livraria. Sendo livro, está valendo... Cinco anos, 300 resenhas e outras coisas mais depois... Afinal de contas, o que interessa é ver aquele monte de letrinha uma ao lado da outra formando palavras, frases, parágrafos, páginas, histórias. Algumas boas, outras ruins. Quem foi que disse que a vida não é assim?

E vou ficando por aqui, reforçando o convite para que vocês visitem o LdM, descubram o que está escrito por aí. Tem resenha sem comentários até hoje, acreditam? Indiquem. Além de livros, podem descobrir outros blogs, outras comunidades, outros caminhos. O site está passando por uma fase de transformações – com carinha nova, própria e linda desde o início do mês – alguns ajustes ainda sendo feitos (à revelia de um modem pouco companheiro e de tantas coisas para fazer em tão pouco tempo...), então as sugestões continuam bem vidas. A pilha de livros que era enorme, agora está assustadoramente gigante – sinto como se fosse o Coelho em Alice no País das Maravilhas, sempre atrasado *risos* E se há cinco anos não havia quase nada em Português, agora está repleto de excelentes opções: o Literatura de Mulherzinha tem orgulho de fazer parte do início desta jornada e ainda estar aqui para contar a história – ou reclamar, ou recomendar... Bem, vocês entenderam, né? E agora que chegou penta, vamos buscar o hexa! ;)

E nossa história não estará
pelo avesso assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe para trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos
(Metal contra as nuvens, Legião Urbana)

Bacci!!!

Beta
Reações:

6 comentários :

  1. Parabéns !
    Parabéns pelos CINCO ANOS DE BLOG !!!

    Eu sou sua leitora recente, mas estou escarafunchando sua literatura para apreciar um trabalho que tornou-se muito querido para mim.

    Você escreve deliciosamente.
    Você escreve divertidamente.

    Você tem dom de fazer suas palvras serem um bálsamo para mim em meus momentos de tédio ou de tristeza ou de serem um mais-mais em meus momentos de alegria e descontração.

    Muito grata pelo "Literatura de Mulherzinha", minha querida, e que ele tenha muitos anos de vida e que você tenha muitos anos de vida e de trabalho, Sra. Jornalista. ^^

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  2. Querida xará de signo e profissão!

    Que dia de São Bento retado (como diz a Natália do Menina da Bahia).

    Ele estava inspirado quando fez a "luz" sugir para você e consequentemente o LdM ter sido criado.

    Até hoje o LdM é a minha enciclopédia para os romances, foi em parte por causa dele que tanto eu quanto Flavinha criamos o Mulheres Românticas.

    Parabéns e que venham mais CINCO anos!

    Beijos

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  3. Parabéns pelo blog, Beta! (eu sei que é aniversário dele e não sei, mas como o LdM surgiu por sua causa...). Que venham mais 5, 10, 15, 20 anos!

    Com suas leituras, divagações e delírios hilários e/ou pertinentes, o sucesso do LdM é mais que merecido!

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  4. Oi, Beta!

    Não poderia deixar de passar por aqui no dia de hoje para comemorar junto com você o aniversário deste blog tão especial!

    Na verdade, é você quem é especial, pois parece ter uma capacidade extra sensorial para adivinhar e publicar os nossos pensamentos com as palavras perfeitas, com a ira necessária, com a irreverência que nos faz sorrir.

    Esse blog não é só de literatura de mulherzinha, é um blog de literatura, é o nosso blog, o nosso espaço democrático onde todos são bem recebidos, pois "Afinal de contas, o que interessa é ver aquele monte de letrinha uma ao lado da outra formando palavras, frases, parágrafos, páginas, histórias".

    Fiquei emocionadíssima quando li esta frase, pois é exatamente o que eu penso, é isso o que conta: as letrinhas que se juntam, que formam palavras, que formam frases e daí surgem as histórias que tanto nos dão prazer, nos fazem esquecer os problemas, nos fazem refletir, sonhar...

    Muitos em muitos anos de vida para o LdM!!!!!

    Beijos,

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  5. Parabéns Roberta pelos 5 anos do LdM!!! Adoro suas resenhas e comentários, e após ler é que decido sevou atrás do livro ou não. Vou em sebos, deixo listas dos procurados com a moça da banca de livros usados na minha cidade e ela me liga quando chega os livros. E foi através do blog que descobri a série do Clube da Bússola.
    Meus parabéns que continue nos propiciando com comentários maravilhosos sobre os livros.

    Beijos e abraços!

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  6. Parbéns pela perseverança! % anos não é pouco. Conheci o seu canto faz pouco, mais me apaixonei pelo seu jeito de escrever. que venham mais 5 =o*

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